👸💤 Bela Adormecida 🌙

A Bela Adormecida

Capítulo 1 – O Reino de Eldória

Em uma cidade pouco conhecida chamada Eldória, onde montanhas cobertas de neve pareciam feitas de cristal e refletiam a luz do sol como espelhos, erguia-se um reino distante. Seus campos de trigo ondulavam ao sabor do vento, e rios tranquilos carregavam pétalas de flores que jamais murchavam.

No coração do reino erguia-se o Castelo de Lysandra, construído com pedras brancas de sal e rocha, lar da Princesa Lyra. Desde o seu nascimento, uma lenda sussurrava pelos corredores do castelo: na noite em que veio ao mundo, uma estrela cadente caiu no jardim real, dando origem a uma rosa de pétalas prateadas nunca antes vista.

A menina, de olhos cor de mel e cabelos como fios de trigo colhidos ao amanhecer, cresceu ouvindo histórias contadas por sua mãe, a Rainha Vidal, e aprendendo lições de justiça com seu pai, o Rei Saudric. Ainda assim, seu verdadeiro refúgio era o Jardim dos Segredos, onde conversava com um cervo albino chamado Orion — guardião silencioso de flores que cantavam quando regadas com lágrimas de alegria.

Capítulo 2 – A Sombra no Espelho

No décimo sexto aniversário de Lyra, uma visitante inesperada cruzou os portões do Castelo de Lysandra. Seu nome era Lady Morgath, tia-avó do rei, exilada havia décadas por praticar artes mágicas proibidas. Envolta em sedas roxas profundas e bordados que pareciam se mover como serpentes vivas, ela trazia consigo um presente envolto em mistério: um espelho de moldura negra, cravejada de espinhos retorcidos.

Para a princesa mais bela — disse Morgath, curvando-se levemente, com um sorriso frio que jamais alcançou seus olhos.

A celebração seguiu sem suspeitas, mas naquela mesma noite, enquanto o castelo dormia, o espelho revelou sua verdadeira natureza. Em sua superfície escura, imagens começaram a se formar como sombras líquidas, mostrando o rancor de Morgath e o futuro selado da princesa.

Na manhã seguinte, Lyra não despertou. O feitiço espalhou-se além dela: criados ficaram imóveis, panelas suspensas no ar, pássaros transformados em estátuas silenciosas. Apenas o Rei Saudric e a Rainha Vidal permaneceram acordados, enquanto a rosa prateada começava lentamente a secar.

O reflexo revelou o futuro selado: Lyra tocando a rosa de pétalas prateadas — agora envenenada por magia antiga — e tombando em um sono profundo. Diante da imagem, a voz de Morgath ecoou como um sussurro cortante:

— Que o tempo apague sua luz, até que alguém a ame mais do que à própria vida.

Criados permaneceram paralisados no meio de seus afazeres; cozinheiros seguravam panelas suspensas no ar; pássaros nas gaiolas tornaram-se estátuas silenciosas. O tempo, aprisionado, parecia ter prendido a respiração.

Apenas o Rei Saudric e a Rainha Vidal permaneceram despertos, protegidos por um antigo amuleto de família. Em lágrimas, eles retornaram ao jardim e, ao tocarem a rosa prateada com mãos trêmulas, suas lágrimas regaram a terra ao redor. Ainda assim, a flor — outrora símbolo de esperança — começou lentamente a secar, como se o próprio destino estivesse sendo consumido.

Capítulo 3 – O Silêncio que Cantava

Os anos passaram como folhas levadas pelo vento. O castelo, agora envolto por roseiras espinhosas, tornou-se lenda. Diziam que, nas noites de lua cheia, o silêncio ao redor era tão profundo que parecia cantar com o eco distante do riso de Lyra vibrando nas paredes adormecidas.

O Rei Saudric e a Rainha Vidal, envelhecidos pelo tempo e pela espera, mantinham viva uma esperança tão frágil quanto persistente. Todos os dias, sem falhar, deixavam uma taça de mel silvestre diante dos portões selados do castelo — uma antiga oferenda, destinada àquele ou àquela que, um dia, pudesse atravessar os espinhos e quebrar o encanto

Enquanto isso, além das muralhas, Eldória definhava lentamente. As colheitas perderam o vigor, os rios tornaram-se rasos e silenciosos, e o povo começou a esquecer não apenas o rosto da princesa, mas até mesmo o seu nome. As histórias foram se apagando, como tinta exposta ao sol.

Apenas um jovem aprendiz de botânico ainda mantinha viva a chama da memória. Chamava-se Elias. Seu avô, o último jardineiro real, morrera anos antes, segurando-lhe a mão e sussurrando palavras que nunca o abandonaram: “A rosa que sangra prata não dorme… ela espera.”

Desde então, Elias carregava consigo um caderno de esboços repleto de plantas raras e anotações antigas, além de uma pequena bolsa de sementes encantadas, herdadas do avô. Convencido de que a cura do reino estava ligada ao destino da princesa, ele partiu em jornada, decidido a encontrar a flor capaz de despertar Lyra — e, com ela, devolver vida a Eldória.

Sem saber, a cada passo que dava, o silêncio ao redor do castelo parecia cantar mais alto.

Capítulo 4 – O Preço do Despertar

Após dez longos invernos de jornada, Elias finalmente alcançou as muralhas do Castelo de Lysandra.

As roseiras espinhosas que o envolviam não eram apenas barreiras físicas: cada espinho guardava o eco de um pesadelo.

Ao tocar um galho retorcido, Elias foi tomado por visões — cavaleiros dissolvendo-se em sombras, princesas transformadas em estátuas de sal, viajantes esquecidos pelo tempo antes mesmo de gritar.

Ainda assim, ele seguiu adiante.

O que o guiava não era força, mas uma melodia suave, quase imperceptível, que parecia nascer do próprio ar.

Ela o conduziu até o Jardim dos Segredos, onde o tempo parecia respirar de forma diferente. Ali, entre raízes antigas e flores adormecidas, surgiu Orion, o cervo albino.

Seus chifres agora estavam cobertos por musgo prateado, como se a própria lua tivesse repousado sobre eles.

— A rosa prateada não vive mais no jardim — disse Orion, com uma voz que ecoava como sinos distantes. — Ela habita o coração da princesa.

— Para que Lyra desperte, alguém deve oferecer algo em troca.

— Um sonho precioso.

No salão do trono, Elias finalmente a viu.

Lyra repousava em sono eterno, intocada pelo tempo. Sua beleza permanecia serena, mas sob as pálpebras fechadas, lágrimas de cristal escorriam lentamente, como se seus sonhos tentassem escapar. O silêncio ali não era vazio — pulsava.

Ao lado do leito, o espelho de Morgath aguardava.

Quando Elias se aproximou, o reflexo não mostrou seu rosto, mas aquilo que mais temia perder: sua irmã mais nova, frágil e sorridente apesar da doença que a acompanhava desde o nascimento. Seu maior desejo — curá-la — ardia diante dele.

— O preço do amor verdadeiro não é um beijo — murmurou o espelho, agora com a voz suave e cruel de Morgath.

— É a escolha.

— Salvar uma única alma… ou resgatar um reino inteiro.

O espelho escureceu.

E o castelo pareceu prender a respiração, aguardando a decisão.

Capítulo 5 – A Rosa que Sangrou Esperança

Após uma noite inteira de angústia silenciosa, Elias fez sua escolha.

Com mãos trêmulas, retirou da bolsa a última semente encantada deixada por seu avô. Ela pulsava com uma luz suave, como um coração prestes a bater. Aproximando-se do leito de Lyra, Elias a plantou sobre o peito da princesa. No instante em que tocou sua pele, a semente se abriu, lançando raízes de luz que se entrelaçaram lentamente ao coração adormecido.

— Leve de mim o que mais desejo — sussurrou Elias, com a voz embargada. — Entregue minha chance de curar minha irmã. Salve-a.

O salão foi tomado por um clarão prateado. No jardim, a rosa prateada — há tanto tempo seca — reviveu, abrindo pétalas novas, agora manchadas de vermelho, como se sangrasse vida em troca de redenção.

Lyra abriu os olhos.

No mesmo instante, Elias caiu ao chão. Seu corpo foi envolto por raízes luminosas, que o sustentaram como braços gentis antes de lentamente se desfazerem.

Quando a princesa despertou por completo, sentiu o castelo respirar novamente. As roseiras espinhosas murcharam e se desfizeram em pó. Criados retomaram seus movimentos interrompidos, panelas voltaram a ferver, pássaros bateram asas — como se tudo tivesse sido apenas um piscar de olhos.

Do lado de fora, o céu se abriu, derramando uma chuva suave de pétalas douradas sobre Eldória.

Lyra correu até Elias. Ele ainda respirava, fraco, mas sorrindo. Em sua mão, repousava uma pequena rosa prateada, intacta.

— Sua irmã… — murmurou ele, com um fio de voz.

Lyra não respondeu com palavras. Apenas levantou o espelho de Morgath, agora partido em fragmentos inofensivos. No reflexo quebrado, via-se a imagem de uma menina saudável, correndo livremente por um campo iluminado.

— Ela está curada — disse Lyra, com os olhos marejados.

A rosa em sua mão brilhou uma última vez.

E Eldória, enfim, despertou para um novo amanhecer.

Capítulo Final – O Banquete das Duas Luas

A grande celebração aconteceu sob um céu jamais visto em Eldória. Duas luas cruzavam-se lentamente no alto — um presente da magia renovada do reino. Sob essa luz encantada, Lyra e Elias sentaram-se lado a lado à mesa do banquete, cercados por risos, música e o perfume de flores recém-despertas.

O Rei Saudric e a Rainha Vidal, rejuvenescidos não pelo tempo, mas pela alegria, levantaram-se diante do povo e anunciaram:

— A partir de hoje, o Dia do Despertar será celebrado todos os anos. Um dia em que ricos e pobres dividirão o mesmo pão, para lembrar que nenhum reino floresce sozinho.

Longe dali, em seu exílio, Morgath sentiu o último fio de seu feitiço se desfazer. Pela primeira vez em muitos anos, não foi raiva o que tomou seu coração, mas um estranho calor. Algo dentro dela, endurecido pelo rancor, voltou a pulsar.

Uma releitura livre inspirada no conto clássico “A Bela Adormecida”.
Por Dorv

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